A Belle Époque
na Amazônia
Silvia Betânia Gordo e Gordo
Em meados do século XIX as descobertas
e lançamentos científicos favoreceram os anseios de utilidade e consumo mundo
afora e é dentro deste contexto que as potências europeias consideravam-se como
as grandes responsáveis por este processo civilizatório, configurando-se entre
1871 e 1914 a Belle Époque, impulsionada pelo dinamismo econômico expandido até
o Brasil.
A sociedade brasileira movida pelo
entusiasmo do capitalismo gerou uma sensação entre as elites de que o país estava
em harmonia com as forças europeias de civilização e progresso rumo à modernidade,
norteando-se aqui o discurso da bela época ou Belle Époque enquanto mentalidade
comum delineadora do auge da civilidade nacional.
Na Amazônia
brasileira a Belle Époque ocorre como fruto do auge da economia
do látex entre os anos 1870 a 1910, concomitante ao que ocorre na Europa com as
transformações derivadas da reprodução do capital e da acumulação de riquezas
pela burguesia internacional.
Em consequência do Boom da borracha, as
principais cidades o Norte, Manaus e Belém, assumiram papel importante no
processo de extração e escoamento da produção do látex, além de reproduzirem e
representarem a vanguarda cultural da região, através da construção de um projeto
modernizador, que demonstrando a necessidade de urbanizar as capitais
amazonense e paraense enquanto espaço de crescimento econômico promovido pela
economia da borracha e pelas transformações políticas e sociais ocorridas no
país a partir da década de 1880. Ou melhor, havia a necessidade de adequar as
cidades às transformações do grande capital, de modo a diversificar os
investimentos financeiros para aplicação em outras atividades favoráveis objetivando
facilitar o escoamento da produção e de divisas para os países centro da
industrialização europeia.
Com a instalação da República no
Brasil, o desenvolvimento urbano se ampliou a partir da descentralização política
que garantiu maior autonomia aos Estados quanto à aplicação dos impostos e participação
na renda de exportação da borracha oriunda da Amazônia. Neste momento, é
fortalecida a ideia de uma ação dinamizadora do embelezamento visual das cidades
associadas à economia, a demografia e também aos valores estéticos de uma
classe social em ascensão, constituída por seringalistas, comerciantes e
fazendeiros ligados ao gerenciamento da extração e exportação do látex. É notório
que, a partir de então “há a necessidade de dar a estes segmentos da população
destas cidades uma estrutura de segurança e acomodação,” além de disseminar a da
ideia positivista de progresso delineada pelo novo regime nacional republicano
do Brasil.
A Política de Antônio Lemos e a Belle Époque
É neste contexto que Antônio Lemos,
então intendente (prefeito) de Belém, oriundo de família humilde de São Luís do
Maranhão, se alistou na Marinha de Guerra, sentando praça como escrevente da
Armada, onde fez incursões no Rio da Prata durante a Guerra do Paraguai (entre
1864 e 1870) com a corveta “Paraense” a fim de ajudar no bloqueio de Montevidéu.
Em Belém, operou na Companhia de Aprendizes de Marinheiro do Pará e na
Companhia de Aprendizes de Artífices do Arsenal de Marinha. Teve uma vida caracterizada
como homem pacato e amizades restritas.
Contudo, relacionou-se com membros do
jornal “O
Pellicano”, defendia uma linha maçônica liberal e
contava com Francisco Cerqueira, padre Eutíquio Pereira da Rocha e Joaquim
José de Assis (seu Diretor), os quais
contribuíram para sua ascensão política no Pará. Posteriormente, com o
fechamento de “O Pellicano”, passou a integrar o jornal “O Liberal do Pará”,
quando em 1885, foi exonerado da Marinha, tendo Dr. Assis o compensado elegendo-o
como deputado provincial, posterior intendente municipal de Belém. Em 1897 o
governo de Paes de Carvalho (1897-1901) enfrentara
crises econômicas e políticas que não impediram as ações importantes como a
colonização da Região Bragantina, estimulando a emigração europeia, e fundando
núcleos agrícolas, posterior sedes municipais. Continuamente houve o início do
saneamento de Belém, a inauguração do Hospital de Isolamento, a ampliação da
Santa Casa, do Liceu (hoje Colégio Paes de Carvalho), a construção de muitas
escolas pelo interior, e a ajuda concreta destinada à urbanização de Belém,
empreendida pela Intendência Municipal.
Já com Augusto Montenegro (1901) no
governo do Estado celebrou-se um acordo entre Montenegro e Lemos,
determinando-se que o primeiro ficava com a administração e o segundo, com a
política, o que favoreceu a Lemos um poder total. Contudo, em 1907 ocorreu uma
crise financeira oriunda da desvalorização da borracha, obrigando Montenegro a
tomar medidas de contenção de despesas. Sobretudo, foi no governo acordado
entre Montenegro e Lemos que foram realizadas construções importantes como
grupos escolares, Instituto Gentil Bittencourt, remodelação total do Teatro da
Paz e do Palácio do Governo, conclusão do Instituto Lauro Sodré e da Estrada de
Ferro de Bragança, entre outros.
Modernização e Urbanização
Antônio
Lemos, adotou uma política modernizante e urbanística em Belém. Por isso,
propunha zelar pelo “bem-estar” e cuidar de certos aspectos da vida urbana,
como saneamento, saúde pública, estética da cidade, etc., uma vez que não seria
conveniente manter os maus hábitos de uma população considerada indisciplinada
e fétida, por isso implantou mediadas para viabilizar a política sanitarista,
como também a urgência na reorganização dos serviços públicos, necessários à
concretização do projeto de reurbanização da cidade. De fato, o controle se
estendeu à moralidade dos habitantes de Belém, que com um Código de Posturas em
vigor ficava proibido fazer “algazarra, dar gritos sem necessidade, apitar,
fazer batuque e sambas (artigo 110).”
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| Avenida Presidente Vargas-Séc. XX.
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A limpeza pública era a necessidade fundamental para
a Belém da Belle Époque, pois o objetivo era afastar da zona central da cidade
os ares fétidos causados pela emanação mal cheirosa do lixo urbano. Neste
sentido, a utilização do processo crematório tornou-se imprescindível na cidade
moderna. É também durante a intendência de Lemos que se efetiva o estabelecimento
da rede geral dos esgotos encaixada enquanto estratégia mais ampla de urbanização
e modernização de Belém.
A Belle Époque imprimia a redefinição do
espaço urbano, a redistribuição dos locais destinados aos serviços sanitários e
o emprego de mecanismos de controle dos hábitos da população, o que tornava
viável a distinção da área central da cidade, destinada aos ricos burgueses
desodorizados e higienizados e as áreas periféricas destinadas à população
trabalhadora e pobre.
A Estética da Cidade
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Comerciante português com venda de produtos de luxo importados de Paris, Franca.
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Com o apogeu da economia da borracha em
Belém houve a transformação que objetivava dar à cidade uma fisionomia urbana comum
a Europa. Belém constituiu a capital europeia na Amazônia brasileira, imbuída
de aspecto intelectual franceses, ressaltando-se a ligação da cidade com as
principais capitais europeias, o que se fundamentava pela dependência
financeira e comercial à Inglaterra, e por uma relação cultural intensa com a
França. Belém ficou conhecida durante o denominado “Ciclo da Borracha” como a “Paris
N'América” ou a “Paris dos Trópicos”.
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Rua João Alfredo/1907. Rua do bairro do Comércio.
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Sendo um projeto das elites locais, o
remodelamento da cidade pautava-se em nome do progresso e do interesse coletivo,
em decorrência da movimentação do porto de Belém. Era então importante a
abertura e calçamento de ruas, tornando o bairro comercial altamente valorizado
e ocupado, ocorrendo à transferência das residências das famílias abastadas para
outros locais como os bairros de Nazaré, Umarizal e Batista Campos.
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| Interior de Bonde
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Antônio Lemos tinha Paris como modelo,
por isso a reforma e o embelezamento do urbano tinha como proposta a
transformação da cidade obedecendo ao modelo das civilizações europeias, com
construção de bulevar, quiosques leves e elegantes de madeira e ferro com
estilo Arte Nouveau destinados ao comércio de café, charutos, revistas,...,
arborizar a cidade como alternativa de vida saldável, com purificação do ar e
amenização do clima,..., instalar bosques, embelezar praças e erigir
monumentos, calçar as ruas, como na Inglaterra com paralelepípedos nas
principais avenidas e pedras irregulares e aterro nas zonas baixas de Belém,
dotá-las de iluminação elétrica e bondes como obras nascidas do progresso
técnico e impactos tecnológicos na mentalidade da população, concentrar a venda
de alimentos em mercados e etc.
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Avenida Nazaré arborizada, calçada e trilhos de bondes elétricos-séc. XX.
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A mudança da cidade era construída através do
alargamento das ruas e construção de avenidas e suntuosas praças,
marcos simbólicos da modernidade. Uma nova concepção estética burguesa do espaço
urbano, como a Praça da República, inaugurada
antes da administração de Antônio Lemos. As praças do centro da cidade tinham a
finalidade de demonstrar o estilo mais condizente com a nova ordem social da
época.
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Avenida Portugal. Praça D Pedro II/1910. Bondes Elétricos em contrastes com as carroças ao lado.
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Sendo lugares públicos de lazer, as praças representam
lugar onde todos querem frequentar para serem vistos. Ser visto é o novo hobby
da nova elite que a partir do vestuário se identifica a que classe pertence. Ao
compor as praças, os monumentos indicam algum dos sentidos dos próprios
projetos de Lemos, nos quais o grupo hegemônico podia exibir os primeiros
monumentos voltados à sagração de seu triunfo e de seus ideais, que poderia ser
feito também no Cinema Olympia. Esta característica do comportamento da
administração de Lemos traduzia a expansão de uma mentalidade modernizadora a
serviço de uma classe que saia ao público e que exigia que o espaço por ela
frequentado fossem indicadores de sua posição social.